Por que os ônibus são tão atrativos para o PCC em São Paulo?

Ônibus estacionados em garagem na Avenida Guido Caloi, Zona Sul de São Paulo, durante a paralização, greve dos motoristas e trocadores de ônibus por melhor...

Por que os ônibus são tão atrativos para o PCC em São Paulo?
Por que os ônibus são tão atrativos para o PCC em São Paulo? (Foto: Reprodução)

Ônibus estacionados em garagem na Avenida Guido Caloi, Zona Sul de São Paulo, durante a paralização, greve dos motoristas e trocadores de ônibus por melhorias nos salários na cidade de São Paulo. São Paulo, 14 de Junho de 2022. VAN CAMPOS/FOTOARENA/FOTOARENA/ESTADÃO CONTEÚDO A Operação Vectura Corrupta, deflagrada nesta quinta-feira (17) pelo Ministério Público de São Paulo, apura possíveis vínculos entre a organização criminosa Primeiro Comando da Capital (PCC) e 12 das 22 empresas que operam o sistema de ônibus da capital. A investigação levou à prisão do ex-presidente da SPTrans, Levi dos Santos Oliveira. O nome do vereador Milton Leite (União), ex-presidente da Câmara Municipal, também aparece em decisões judiciais relacionadas ao caso; as suspeitas ainda são objeto de investigação. Mas por que o transporte coletivo desperta tanto o interesse do PCC? O professor Ciro Biderman, da Fundação Getúlio Vargas (FGV), adianta que a explicação não está diretamente ligada à quantidade de dinheiro vivo que circula nos ônibus. A avaliação considera a evolução do sistema de transporte ao longo dos anos, com a redução da circulação de cédulas e a ampliação de meios eletrônicos de pagamento, como o Bilhete Único. O interesse da facção, na verdade, estaria relacionado à possibilidade de fazer grandes aplicações financeiras (ganhar com juros), transformar o dinheiro ilícito em receita formal (lavar o dinheiro), ter um fluxo diário de dinheiro e manter relações com agentes públicos. Por que ônibus, e não outros serviços públicos? Na avaliação do pesquisador, os ônibus apresentam uma combinação específica de características: Exige grande aporte de dinheiro, o que facilita a lavagem; Tem uma operação tecnicamente menos complexa do que a de outros serviços de infraestrutura; Conta com fluxo diário e grande de dinheiro circulando. “Compara com outros serviços... Uma rodovia, por exemplo, é muito mais complicado, apenas meia dúzia de pessoas são especialistas. Compara com saneamento, com saúde. É muito mais difícil, mais complexo", apontou. Ou seja, embora a operação dos ônibus não seja simples, a atividade pode ser considerada relativamente acessível em comparação com setores que demandam estruturas técnicas e conhecimentos muito especializados. Necessidade da aparência lícita Lavar dinheiro exige uma formalização. Se ele não tem uma parte lícita, o dinheiro teria que ficar o tempo inteiro em espécie. Claro que poderia lavar com obra de arte, mas teria sempre que explicar de onde vem o dinheiro. Por isso, a lavagem sempre vai passar por um grupo formal Outro fator apontado pelo professor é a possibilidade de o transporte gerar uma receita recorrente, diferentemente de uma atividade que depende de vendas sazonais ou de contratos pontuais. “Uma vez que você compra frotas de ônibus, você precisa comprar combustível, precisa contratar pessoas. Você passa a ter uma receita permanente entrando, entra diariamente. Isso é ótimo, eles têm uma liquidez diária formal”, afirmou. Milton Leite é alvo de operação contra infiltração do PCC no sistema de transporte de SP A relação com o poder público Além da possibilidade de movimentar recursos, uma empresa formal pode oferecer à organização criminosa acesso a relações institucionais e ao poder público. O transporte coletivo abre margem para essa dinâmica por se tratar de um serviço que exige contratos, regras de concessão ou permissão, fiscalização e mecanismos de remuneração definidos justamente por quem está no poder. Por isso, controlar ou influenciar uma empresa do setor pode significar também estabelecer contatos com agentes responsáveis por decisões administrativas, contratos, pagamentos e fiscalização, além de criar motivos "legítimos" para reuniões com integrantes da administração pública. Empresas investigadas transportam 41% dos passageiros As 12 empresas de ônibus suspeitas de ligação com o PCC citadas na investigação operam todas as linhas de distribuição local da cidade de São Paulo, responsáveis pelos deslocamentos dentro dos bairros e entre regiões próximas. Juntas, elas concentram 510 linhas municipais, o equivalente a 38% de toda a rede da capital. Em agosto de 2026, as 12 empresas transportaram 72.947.123 passageiros. No mesmo período, o sistema municipal registrou 177.902.234 embarques. Isso significa que as empresas citadas na investigação responderam por cerca de 41% de todos os passageiros transportados pelos ônibus da capital naquele mês. "Salta aos olhos que as investigações apontam que 12 das 22 empresas de transporte operando o sistema de transporte coletivo da capital são, em tese, controladas pelo PCC", escreveu o desembargador Sérgio Ribas na decisão que autorizou a operação. As empresas citadas na investigação são: Viação Transcap Transportes (atual Bless); Alfa Rodobus Transportes; Transwolff Transportes; A2 Transportes; Imperial Transportes; Move Buss Transportes; Pêssego Transportes; Allianz Transportes (atual Allibus); Transunião Transportes; Qualibus Transportes (atual UPBus); Norte Bus Transportes (integra o Consórcio Transnoroeste); Spencer Transportes (integra o Consórcio Transnoroeste). Onde atuam empresas de ônibus suspeitas de ligação com o PCC Arte/g1 Operação Vectura Corrupta A Operação Vectura Corrupta é mais um capítulo de uma série de investigações sobre a presença do crime organizado no transporte coletivo de São Paulo. Em abril de 2024, a Operação Fim da Linha, do Ministério Público, investigou suspeitas de lavagem de dinheiro e de infiltração do PCC em empresas de ônibus da capital, incluindo a Transwolff e a UpBus. Na investigação atual, o MP afirma ter identificado suspeitas envolvendo 12 das 22 empresas que operam o sistema municipal. O Ministério Público também apresentou denúncia contra 19 pessoas por suspeitas relacionadas ao chamado “banco do crime”, estrutura financeira atribuída ao PCC. Segundo a acusação, o grupo utilizaria empresas de fachada, contas de terceiros e laranjas para movimentar recursos.

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